O vírus da nação auto-suficiente

Telmo Azevedo Fernandes


Não aproveitar a escala de divisão de trabalho e especialização que o comércio internacional nos permite é uma forma de ficarmos mais pobres e menos capazes de combater esta ou futuras ondas epidémicas.

O receio de não haver equipamentos e materiais em quantidade suficiente no mercado para que o SNS possa acudir à procura acrescida de cuidados relacionados com a covid19 confirmou para muitos a urgente necessidade de Portugal não ficar dependente do comércio internacional para aceder a esses produtos, e a obrigação imprescindível de o país de ter produção própria de ventiladores, máscaras, kits de teste e outros bens. Quando grande parte destas provisões têm tido origem na China, país onde a epidemia começou, a necessidade de fabricar localmente é ainda mais evidente, diz-se.

O disparate é democrático e abundante, pelo que não é de estranhar este sentimento nacionalista bacoco.

É facto que as cadeias de fornecimento chinesas sofreram paragens bruscas e mesmo o agora aparente regresso paulatino à normalidade não desbloqueia de forma imediata os estrangulamentos nos fretes marítimos, por exemplo.

Todavia convém ressalvar que nem os agentes económicos foram obrigados a comprar numa determinada geografia, nem os políticos podem ficar isentos de se lhes assacar responsabilidade pela falta de previdência e consequente ruptura de stocks dos organismos do Estado. Não se verifica nem uma falha de mercado nem um efeito nefasto do comércio internacional já que, com o tempo de evolução prévia da doença noutros países, se tornou evidente que os dirigentes da administração pública responsáveis por assegurar a continuidade e o nível de serviço de um sector tão estratégico como a saúde não só não acautelaram as reservas minimamente razoáveis como não equilibraram de forma inteligente a escolha e origem dos fornecedores.

Em contextos normais as pessoas adquirem aquilo de que precisam a quem vende mais barato e com melhor qualidade. Se compram a terceiros em vez de produzirem elas próprias, é certamente porque não têm capacidade para isso ou porque o custo de oportunidade de ser auto-suficiente é demasiado elevado, ou seja, não lhes compensa abdicar de outras coisas para tal.

Decorre disto que para que a produção dos bens que compramos ao exterior se transfira para Portugal, só através da coerção e da imposição governamental tal se conseguirá sustentar. Mas mesmo partindo do princípio de que o tecido industrial português teria condições de adaptar as suas linhas de produção de forma minimamente eficaz para fabricar produtos equivalentes, convém não ter a ilusão de que a nossa casa está isenta de riscos. Concentrar unicamente em Portugal a fabricação de bens críticos para funções básicas de assistência à população não é panaceia. Basta imaginar o que aconteceria com uma disrupção local sendo que, como sabemos, os vírus não escolham nacionalidades e os desastres não acontecem só aos outros.

Contudo o Corona não destruiu a capacidade instalada nem o know-how de fabricação na China nem em qualquer outro país. Por razões sanitárias os Estados mandaram parar a produção, criando falhas e complicações nas cadeias de fornecimento. Todavia estas serão restabelecidas após o surto e o padrão de vantagens comparativas internacional não se alterará de forma substancial por causa da epidemia.

As falhas de máscaras ou ventiladores que vivemos não deve fazer com que o Estado imponha a produção e compra nacional desses artigos. Os agentes privados, através da multiplicidade de interacções que estabelecem, saberão gerir e minimizar os riscos de novas quebras nas cadeias de fornecimento, nomeadamente não colocando os ovos todos no mesmo cesto. Os agentes públicos devem aprender com os seus erros, planeando de forma prudente e precavida beneficiando.

Se o intervencionismo estatal não permitir a retoma dos circuitos internacionais e quisermos fazer tudo dentro de portas, teremos de gastar recursos adicionais (que serão ainda mais escassos em crise) para obter os equipamentos de que precisamos e, provavelmente, teremos de nos contentar em ter acesso a quantidades novamente escassas daquilo que faz falta para protecção da nossa saúde.

Não aproveitar a escala de divisão de trabalho e especialização que o comércio internacional nos permite é uma forma de ficarmos mais pobres e menos capazes de combater esta ou futuras ondas epidémicas.

A interdependência global e o aproveitamento das vantagens comparativas através das trocas comerciais são os únicos meios de melhoramos a nossa condição de vida e bem-estar. A diversidade de origens das importações não se decreta, mas antes define-se pelo mercado. Comprar fora não nos torna mais vulneráveis do que produzir cá dentro. Pelo contrário, permite-nos viver melhor e prevenirmo-nos de forma mais eficaz contra vírus.

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